Durante anos, a principal dificuldade enfrentada pelas empresas foi a fragmentação de sistemas, dados e processos. Essa divisão, que nasceu na busca por especialização, gerou a indesejada perda de contexto operacional, tornando a tomada de decisão mais lenta, imprecisa e cara. Estudos apontam que a falta de um sistema estruturado pode fazer com que equipes percam até 30% do tempo em retrabalho, ao passo que a integração entre áreas é uma questão estratégica que pode elevar a lucratividade em cerca de 25%, de acordo com um estudo da consultoria McKinsey.
À medida que os ecossistemas de negócios se tornam cada vez mais complexos, a capacidade de conectar aplicações, dados e inteligência se torna determinante para a competitividade. Nesse contexto, a inovação não se resume mais à automação de processos isolados. Pelo contrário, se torna imprescindível a presença de inteligência analítica em todo o fluxo operacional. A chegada da Inteligência Artificial (IA) nativa aos ERPs, ou softwares de gestão empresarial, marca uma nova era de projetos corporativos, nos quais a eficiência depende da compreensão contextual dos dados – e não apenas da automação.
Nesse cenário, o parceiro de implementação assume um papel decisivo, atuando como um tradutor entre o universo técnico e o estratégico. Sua missão é garantir que a tecnologia não seja apenas implementada, mas sim absorvida pela cultura organizacional, transformando dados dispersos em conhecimento acionável. Para apoiar essa jornada junto à indústria de software, o parceiro deve evoluir continuamente em suas práticas de inovação.
Por exemplo, uma vez que o ERP assume uma arquitetura de IA nativa às aplicações, pelo lado de quem a implementa, é preciso que haja uma frente dedicada à IA corporativa aplicada aos processos desse software. Do ponto de vista de estrutura, isso exige ajustes técnicos e de governança para incorporar a integração de aplicação, da IA e dos dados. O modelo de entrega precisa ser ajustado para incluir arquitetos de IA e especialistas em governança de dados em todas as propostas de implementação.
Indo além, é preciso criar metodologias que aceleram os processos e incorporem as mudanças promovidas pela indústria de software para garantir que a inteligência esteja presente desde a camada de dados até a experiência dos usuários.
Capacitar consultores em tecnologias promissoras como a IA generativa, utilizando um modelo de co-criação com clientes, e criar agentes autônomos, treinados sobre dados reais e regras de negócio específicas, também faz parte das mudanças para ampliar a eficiência operacional e fortalecer a confiança na adoção de novas tecnologias.
Um parceiro de implementação também deve focar a integração em áreas que geram alto potencial de retorno. Por exemplo, em clientes de segmentos industriais, como varejo e moda, o maior valor está na integração entre Vendas, Supply Chain e Planejamento Avançado. Essa sinergia permite alinhar demanda, produção e capacidade em tempo real, resultando na otimização de estoques, redução de rupturas e elevação da assertividade comercial. O resultado do uso de modelos preditivos tem como meta atingir ganhos expressivos de margem operacional.
Embora o movimento da indústria de ERP esteja na direção a uma plataforma unificada para consistência de dados, o parceiro deve reconhecer que ainda haverá espaço para soluções complementares. Áreas como compliance fiscal e analytics avançado continuam demandando especializações locais, que atuam como diferenciais competitivos.
E, para mitigar a percepção de risco, como governança de IA e segurança de dados, e impulsionando a adoção de uma nova arquitetura, mais avançada e inovadora, a estratégia precisa se basear na educação do cliente sobre os novos modelos, na oferta de um business cases com ROI (Retorno sobre Investimento) claro e na implementação de governança e ética em IA, incluindo uma estrutura de validação humana.
No final das contas, o parceiro de inovação torna-se o catalisador de valor que garante o equilíbrio entre tecnologia, propósito e confiança, base essencial para transformar as mudanças dos tradicionais softwares de gestão para a nova onda das plataformas baseadas em IA, trazendo, assim, uma vantagem competitiva real para as empresas.
– Vitor Genaro é diretor de soluções na Ábaco Consulting, boutique consultiva de negócios focada em gestão e parceira da SAP.
