Eu estava lá quando o bastão foi passado. Vi o reinado do SAP APO chegar ao fim e o nascimento tímido do IBP.
Sou da época em que precisávamos explicar para o cliente que aquele “Excel no navegador” era, de fato, o futuro da cadeia de suprimentos.
De lá para cá, eu vi de tudo e fiz de tudo. Passei por indústrias farmacêuticas lidando com shelf-life crítico, mineradoras com seus equipamentos gigantes e empresas de serviços com demandas voláteis. Em todos esses lugares, o sonho era o mesmo: unir o planejamento estratégico (S&OP) com a execução tática (S&OE).
O desafio da realidade técnica
Mas a realidade técnica nos obrigava a criar verdadeiros “Frankensteins”.
Quantas vezes nós, consultores, tivemos que criar múltiplas Planning Areas para dar conta do recado? Criamos Copy Operators complexos e fluxos de integração que iam e voltavam para tentar “colar” o mundo de Time-Series (S&OP) com o mundo Order-Based (Operacional).
Gastávamos mais tempo garantindo que o dado tinha viajado de uma área para a outra do que analisando o problema de negócio do cliente.
Um sentimento de alívio com a Release 2602
Por isso, escrevo este texto hoje com um sentimento de alívio.
Com a chegada da Release 2602 neste mês de Fevereiro, a Unified Planning Area (tecnicamente chamada de Model I_SAPIBP2) atinge sua maturidade. Isso não é apenas uma “atualização de versão”; é a realização de uma promessa antiga.
Para quem está perdido: o que é essa “Unificação”?
Se você ainda planeja em “caixinhas”, precisa entender isso agora.
Até pouco tempo, o SAP IBP tinha duas personalidades separadas:
Time-Series
Olhava para o futuro em baldes (períodos) mensais/semanais (o mundo do S&OP).
Order-Based (OBP)
Olhava para o agora, pedido por pedido (o mundo do S&OE).
Para eles conversarem, precisávamos duplicar dados e criar pontes manuais.
A I_SAPIBP2 derruba esse muro. Agora, Demanda, Estoque, Suprimentos e Detalhe de Pedidos vivem sob o mesmo teto, compartilhando a mesma estrutura de dados mestres, sem cópias e sem delay.
O tático e o operacional viraram um só.
A virada de chave: o tempo
A grande virada de chave é o tempo.
Com a unificação, vamos parar de gastar energia com a “engenharia” de manter múltiplas áreas sincronizadas. Mas não se engane: a facilidade cobra seu preço em estudo.
Destinamos meses de estudos intensivos com um time de 6 consultores, levando a ferramenta ao extremo para entender as “entrelinhas” que não estão no manual.
O que há de novo na prática
Dessa imersão, extraímos o que há de novo:
- A integração via RTI (Real-Time Integration) agora é o coração de tudo, substituindo velhos métodos para dados operacionais.
- Campos que ignorávamos no S/4HANA agora são vitais no IBP.
- A nova versão 2602 finalmente trouxe cenários complexos (como CBP – Characteristics-Based Planning e Shelf Life) para dentro dessa área unificada.
Como se preparar para essa onda?
Domine o RTI
Ele é a língua nativa da Área Harmonizada. Se você não sabe configurar um Integration Profile, está fora do jogo.
Revisite o Dado Mestre
Entenda a “Flexible Master Data”. A rigidez do passado acabou, mas a responsabilidade sobre a qualidade do dado aumentou.
Abrace a IA
Com os dados unificados sob o modelo 2602, a IA consegue cruzar o forecast estatístico com a restrição do pedido real em tempo recorde. Isso é poder.
Para os meus colegas consultores e clientes, o recado é claro: o IBP cresceu.
Ele não aceita mais “gambiarras”. Ele pede dados limpos e pede consultores que entendam de integração tanto quanto entendem de Supply Chain.
A integração agora é Real Time de verdade!
– Mayara Marques é Supply Chain Consultant SAP IBP na Ábaco Consulting.
